A noticia é esta. Leiam lá que já volto a falar convosco.
Produtores algarvios de alfarroba ameaçam com milícias armadas
"Temos uma milícia organizada e armada e batedores por toda a região com licença para matar", pode ler-se num comunicado enviado para a GNR e para a Câmara Municipal de Loulé.
O documento foi enviado em nome de uma alegada associação de produtores, não identificada, e nele as ameaças vão mais longe, estendendo-se à comunidade cigana: "Tolerância zero para quem der trabalho ou permitir acampamento a ciganos. Tolerância zero aos compradores que negoceiam com ciganos e produto roubado", ameaçam os agricultores. "Se necessário for daremos fogo às viaturas e armazéns dos infractores", avisam no comunicado anónimo.
Contactado pelo Expresso, Horácio Piedade, vice-presidente da AGRUPA, o Agrupamento de Alfarroba e Amêndoa do Algarve, apressa-se a demarcar-se da iniciativa. "Não sabemos quem enviou o comunicado, mas a AGRUPA não foi concerteza. Nós confiamos na Justiça portuguesa e acreditamos que se tratará só de uma ameaça para pressionar as forças vivas da região", afirma o também presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião, em Loulé.
AGRUPA repudia racismo
Horácio Piedade repudia também o carácter racista do comunicado face à comunidade cigana, embora admita que há muitas queixas de produtores dirigidas especificamente contra alguns membros desta comunidade, alegadamente envolvidos nos furtos. "Mas isso é como em tudo, não podemos tomar a parte pelo todo", adianta.
Ao mesmo tempo que desvaloriza o teor ameaçador do comunicado, Horácio Piedade entende o desabafo dos produtores. "Muitas vezes os produtores já nem fazem queixa, porque estão cansados e sabem que não vai dar em nada. Nós insistimos para que façam queixa, para que fique registado, mas o que é facto é que é raro que aconteça alguma coisa e se chegar a tribunal, o que é raro, também morre ali", diz Horácio Piedade.
Jovem morto a tiro por causa das alfarrobas
Segundo a AGRUPA, no ano passado uma campanha de vigilância mais intensiva por parte da GNR pôs cobro no terreno às pilhagens, isto na mesma altura em que um jovem de 19 anos foi morto à porta da casa do avô, alegadamente por um grupo que furtava alfarrobas no terreno.
O jovem estava em casa com o avô, que se encontra acamado, quando ouviu um barulho e foi ver o que se passava. Pouco depois, foi abatido a tiro. Este ano, porém, segundo o agrupamento de produtores, os roubos têm aumentado de novo.
Contactada pelo Expresso, a GNR foi parca em comentários. "Não temos conhecimento de quaisquer milícias, mas teremos que ver os dados para verificar se têm existido queixas crime quanto a furtos de alfarrobas", adiantou fonte das relações públicas da Guarda Nacional Republicana.
Alfarroba dá dinheiro
Da associação AGRUPA fazem parte actualmente cerca de 500 produtores, que apesar de verem o preço da matéria-prima baixar de ano para ano ainda encontram na alfarroba uma das poucas formas de sustento a partir da terra.
"A arroba (15 quilos) está a quatro euros e quarenta, há três anos era a sete. É um fruto que não tem quase manutenção, é fácil de apanhar e é por isso que os agricultores ainda produzem, porque tem muitas aplicações e ainda vai dando algum dinheiro", resume Horácio Piedade.
É por isso que, embora não subscreva os métodos, Horácio Piedade compreende o sentimento dos autores da mensagem. "É a reacção de pessoas revoltadas", constata. "Milícias com licença para matar, já viu o que era?", conclui.
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